San Tiago Dantas

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25 e 26-03-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Segunda e terça-feira, 25 e 26 de Março de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


O “Jornal do Commercio”, sob a administração que hoje se inicia, não se afastará dos princípios e métodos em que se formou a personalidade desta folha. Os homens dignos e ilustres, que a dirigiram sucessivamente em cento e trinta anos, e os profissionais competentes que a redigem e compõem, souberam fazer dela uma instituição viva, coerente nas atitudes e consequente nos fins, cujos traços mais característicos, no conceito de todos, são a objetividade, a ponderação e a independência.

Elmano Cardim, ao retirar-se do jornalismo, que praticou durante quarenta e sete anos com irrepreensível probidade e equilíbrio intelectual, deixa não apenas intacto, mas acrescido o patrimônio cultural que recebera das mãos de Felix Pacheco. A nova administração do Jornal do Commercio põe todo seu empenho em colocar-se à altura das anteriores, e em conduzir este venerando órgão da imprensa sem quebra de continuidade.

O respeito à tradição e à continuidade, quando os traços a preservar são aqueles do “Jornal do Commercio”, não implica, porém, numa atitude passadista, ou conservadora. A objetividade reclama, pelo contrário, um esforço constante e deliberado de ajustamento do espírito à realidade da época, e ponderação não significa, e nesta folha jamais significou, perplexidade ou timidez no opinar sobre homens e acontecimentos.

Sendo um órgão de informação, no melhor e mais fiel sentido da palavra, isto é, que oferece a seus leitores, com isenção e objetividade, notícias exatas, sem a prévia influência de uma tese a demonstrar, o “Jornal do Commercio” também será, como tem sido, um órgão de opinião, pronto a tomar posição própria em todas as opções e alternativas que se apresentam ao país.

Muitas dessas posições já se acham, por assim dizer, predeterminadas por essa orientação constante que acaba por imprimir-se na consciência de um jornal, como a soma ou resultante de todas as suas atitudes, e vem a constituir o vínculo de confiança entre ele e os seus leitores. Essa orientação impessoal, capaz de sobrepor-se às diversidades de temperamento e mesmo às particularidades de ideias de cada diretor ou redator, é para um jornal o prêmio da coerência e da sua maior fidelidade ao público do que às personalidades que o dirigem.

Tem sido e continuará a ser essa a norma do “Jornal do Commercio” — apagarem-se as figuras do seu diretor e dos seus redatores, diante da figura maior e permanente do próprio jornal, a que eles servem. Este é que tem, em face do público, objetivos e compromissos, os quais, em última análise, se resumem no de informar com exatidão e opinar com independência.

Para cumpri-lo, o “Jornal do Commercio” se situa, hoje como ontem, fora da influência dos grupos políticos e dos partidos, observando, com igual isenção de espirito, Governo e oposição, com o propósito de apoiar iniciativas e atitudes de um e de outra, sempre e enquanto lhe parecerem coincidentes com o interesse do país.

Acima dos indivíduos e dos partidos, há uma ordem legal brasileira, conquistada pacientemente através das vicissitudes da nossa vida pública, e a sua preservação e defesa — em terreno político, como o nosso, ainda não sedimentado inteiramente, onde reaparece, de tempos em tempos, a ameaça dos governos de fato e das ditaduras tutelares — prevalece na consciência deste jornal sobre todas as paixões.

No tocante à vida econômica, o “Jornal do Commercio” tem uma tradição ininterrupta de serviços ao progresso material do país. Sua posição sempre foi, e continuará sendo, de apoio e estímulo aos que promovem a expansão das nossas riquezas, procurando fornecer-lhes informações e índices seguros, por onde possa cada um seguir, não apenas o movimento dos negócios, mas a conjuntura econômica, nacional e internacional.

O desenvolvimento econômico intensivo tornou-se, com razão, o objetivo primordial para que se voltam o pensamento e as atividades desta geração. Sem alcançar um nível mais elevado de renda nacional, sem diversificar de maneira harmônica sua economia, sem criar um mercado interno de consumo proporcional à sua capacidade de produção, o nosso país não conseguirá manter, num futuro bastante próximo, a sua crescente população nos quadros da vida democrática, nem preservar talvez a sua verdadeira independência política.

O “Jornal do Commercio” volta-se integralmente para a luta pelo desenvolvimento econômico e social do pais, e para o exame de cada um dos problemas que ele cria ou exacerba. Esses problemas envolvem questões de ordem política e econômica, e também de ordem moral, pois o desenvolvimento econômico não se alcança sem uma luta constante e implacável contra a corrupção.

Fiel aos princípios e normas, que sempre pautaram as atitudes e pronunciamentos do “Jornal do Commercio”, e procurando dar-lhes expressão adequada em face das realidades de hoje, a nova administração vai enfrentar, sem pressa, mas também sem demora, os problemas técnicos de produção do jornal, que está reclamando modernização, para servir melhor e mais comodamente aos seus leitores.

Os novos e antigos trabalhadores – redatores, colaboradores, revisores, gráficos, chefes e auxiliares de administração – voltam neste instante seu pensamento, com amizade, admiração e reconhecimento, para Elmano Cardim, que comandou o “Jornal do Commercio” em horas tranquilas e em horas difíceis, com inalterável serenidade, com o mais alto civismo e com o descortino intelectual de um autêntico homem público; e associam à sua a figura  da veneranda senhora D. Dora Rodrigues Pacheco, que trouxe presente até os dias de hoje a irradiação da personalidade de Felix Pacheco, o chanceler seguro, o homem de cultura e de visão, sob cuja direção culminou a obra de José Carlos Rodrigues.

A Elmano Cardim e a D. Dora Rodrigues Pacheco, que se retiram para um repouso merecido depois de anos de trabalho honrado, os votos de felicidade do seu jornal.