San Tiago Dantas

Obra >> Artigos >> Várias do Jornal do Commercio >> 29-03-1957

29-03-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Sexta-feira, 29 de Março de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


A União Democrática Nacional vem apresentando, no corrente ano, sinais positivos de renascimento, como grupo partidário responsável pela oposição.

O ano de 1959 foi desastroso para o prestigio dos partidos, em geral, mas especialmente para a UDN, que não fez senão perder substância e autoridade. Sua linha de ação resumiu-se em manter um clima de expectativa de escândalo em torno do governo do sr. Juscelino Kubitschek, e em procurar abater o prestigio do general Teixeira Lott junto ao governo, à opinião pública e aos militares.

Não é possível negar que essa linha de combate, escolhida pelos líderes udenistas na imprensa e no Congresso. expôs o partido a um desgaste de vastas proporções.

O “suspense” do escândalo fatigou a opinião pública, sem ter conseguido resolver-se em nenhuma acusação politicamente sensacional. Sem dúvida é possível apontar, aqui e ali, o deslize de um funcionário ou os abusos de um chefe político poderoso, mas essas imperfeições, embora reclamem repressão pronta, não chegam a oferecer o volume social, com que contava a UDN para desacreditar o governo e restaurar o clima de tempestades do último ano do sr. Getúlio Vargas. É difícil dizer até que ponto a atitude da UDN serviu do freio à tendência da burocracia e dos grupos dominantes para praticar ou tolerar um grau mais elevado de corrupção, mas é certo, em todo caso, que a própria UDN não tirou benefícios de sua linha e ainda consumiu mais o seu limitado estoque de popularidade.

Quanto à linha de ataque ao general Lott, foi simples produto do ressentimento político de 11 de novembro, que o Partido não teve o pragmatismo suficiente para superar e conduziu ao resultado paradoxal de aproveitar unicamente à posição pessoal do Presidente da República. De fato, o sr. Juscelino Kubitschek começara seu governo sob a proteção de um condestável. Sua autoridade de fato era menor que sua autoridade de direito, e o seu problema, ou melhor, o seu dilema, era que a permanência do general Lott no governo parecia desprestigiá-lo, e a saída do general parecia desampará-lo.

A pertinaz campanha da UDN coroada pelo episódio da espada de ouro — interessantíssimo exemplo do que pode suceder à inexperiência política — conduziu à libertação do sr. Juscelino Kubitschek, sem perda da colaboração ainda valiosa do general.

Outros episódios políticos do ano findo, fomentados pela oposição, apresentaram saldos negativos no encerramento. Tanto mais que as forças do partido se dividiram na sua dupla tendência tradicional — a dos que querem lutar e acusar a qualquer preço, mesmo sem uma finalidade partidariamente construtiva, e a dos que querem colaborar com o governo quase sempre visando a acomodações regionais.

É provável que essa linha desastrada tivesse origem, em grande parte, nas perigosas toxinas deixadas pelo 11 de novembro na circulação política do país. O desapontamento do general Juarez Távora, a revolta ao sr. Carlos Lacerda, contra o seu próprio partido, o cansaço do sr. Affonso Arinos de certos aspectos da vida partidária, a aversão do sr. Milton Campos pela personalidade do Presidente da República, por certo contribuíram para que a orientação da UDN se processasse com assomo e falta de sentido tático, gerando impaciência e desapontamento mesmo naqueles círculos que renegam a filiação partidária ao udenismo, mas não conseguem alimentar-se senão das ideias e emoções que ela engendra.

Indo assim, o ano político de 58 só podia encerrar-se, para o Partido, com perdas. O ano corrente despertou, porém, ao que parece, uma reação salutar.

O primeiro ponto a observar é a condução à liderança da Câmara do sr. Carlos Lacerda. Muitos poderão pensar que o líder da mais feroz campanha de opinião já desencadeada no país — será figura imprópria para liderar uma bancada pelo extremismo e a impulsividade das suas atitudes. Mas a verdade é que o sr. Carlos Lacerda vai ser chamado pela primeira vez a uma experiência decisiva na sua discutida carreira — a experiência da autoridade.

Que uso vai ele fazer da autoridade que lhe confere o Partido numa hora de alternativa entre o reerguimento e o perecimento? É esta a ocasião de saber o país se a energia do sr. Carlos Lacerda pode ser captada para um fim construtivo, ou se, pelo contrário, só serve para expedições singulares e tarefas de demolição.

O discurso por ele pronunciado ontem na Câmara não permite ainda previsões. Preocupado em dar respostas às críticas e perguntas informuladas que pressentia no espírito do seu auditório, o sr. Carlos Lacerda pronunciou um discurso de resultado inexpressivo.

O segundo ponto a considerar será a presidência da UDN confiada ao sr. Juracy Magalhães. A carreira do sr. Juracy Magalhães é impulsionada por um ritmo desigual, em que ele ora ganha autoridade, ora perde substância. Os momentos positivos são as fases em que ele assume funções administrativas, para as quais mostra um padrão elevado de eficiência e capacidade de liderança. Os momentos negativos são suas explosões de agressividade, excessivamente emocionais e nem sempre defensáveis.

Não está, entre os bons, mas entre os maus momentos da sua ação política a recente agressão ao Presidente da República, montada sobre fatos que não conseguiram impressionar. O único efeito desse episódio foi, afinal de contas, inscrever o senador pela Bahia na ala mais intransigente da UDN, cancelando sua matrícula na ala colaboracionista, de onde dificilmente sairia o presidente do Partido.

Eleito, o sr. Juracy Magalhães será um elemento de valor na reorientação da política partidária. Seu senso da realidade e seu conhecimento de diversos assuntos, inclusive sua excelente posição na chefia da Petrobrás, dão-lhe decididas qualidades para repor em movimento o carro do Partido.

Outra escolha a considerar é a do sr. Magalhães Pinto para a presidência da mais importante seção da UDN, a de Minas.

O sr. Magalhães Pinto é um dos raros udenistas que se afastam do tipo do bacharel-político, predominante no partido. Homem de notória probidade, sem alarde: de invulgar inteligência, sem exibições: intransigente no que é essencial e conciliador no que é acessório, sua projeção na política brasileira, a partir desta investidura não fará senão crescer.

Com essas novas escolhas, a UDN parece de fato preparar-se para repor nos trilhos o seu destino de partido. Na vida de uma democracia é tão perigoso não haver governo, como não haver oposição. E fazer oposição é uma tarefa construtiva, que não consiste em inquietar, mas em fiscalizar, nem em desmoralizar mas em coibir.