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28-03-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Quinta-feira, 28 de Março de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


Em entrevista ontem concedida ao “Jornal do Commercio”, o Sr. Antoine Pinay, com sua autoridade de antigo Presidente do Conselho de Ministros da República Francesa e também com a de financista justamente reputado pelo êxito da política anti-inflacionária que desenvolveu no seu período de governo, mostrou que o combate à inflação é improdutivo se as medidas governamentais não se dirigem simultaneamente à restrição seletiva do crédito privado e à compressão das despesas públicas, especialmente as improdutivas.

É fácil compreender o papel do crédito privado na propagação e fomento ao processo inflacionário. Se o crédito é dispensado a consumidores, este lhes aumenta os meios de disputarem as mercadorias existentes em quantidade limitada, e o resultado não pode deixar de ser a propensão à alta dos preços. Se o crédito é proporcionado a iniciativas novas, este faz com que sejam mais severamente disputados, no mercado interno, os bens de produção e as disponibilidades de mão-de-obra, que nem por isso aumentam em quantidade, e, portanto, se deslocarão do lugar onde estiverem empregadas para atender ao apelo de quem apareça oferecendo maior salário ou maior preço. Se o crédito é dado a negócios já existentes, muitas vezes serve para financiar os estoques nos armazéns e nas prateleiras, desfavorecendo a possível tendência para uma intensificação de vendas, mediante rebaixa de preços.

Por isso são muito justificadas as medidas de um Governo cerceadoras do crédito bancário, com a finalidade de luta contra a inflação. Essas medidas serão, porém, não apenas improfícuas, mas contraproducentes, se o Governo não for capaz de comprimir com rigor proporcional as suas próprias despesas. De fato, que sucede hoje no Brasil, no tocante à restrição de créditos aos particulares, e à compressão das despesas públicas?

O sistema de crédito privado, com o recolhimento obrigatório de depósitos bancários à SUMOC. Fica impossibilitado de atender as necessidades de financiamento, mesmo as mais legitimas, da indústria e do comércio, que, com a alta geral doa preços, sempre necessitam de créditos maiores para manter o mesmo volume físico de negócios. Comprimem-se desse modo os negócios privados e as importâncias entregues à SUMOC são recolhidas à caixa geral do Banco do Brasil, que com elas vai incrementar a massa de recursos destinada ao financiamento das despesas públicas.

Essas despesas públicas, como é fácil verificar pelo exame dos balanços do Banco do Brasil e pela execução do Orçamento, longe de sofrerem cerceamento, não fazem senão crescer. De sorte que a política de restrição de crédito do Governo se resume em transferir recursos do setor privado para o setor público, sem conseguir exercer qualquer contenção efetiva dos preços.

As palavras do Presidente Pinay devem gozar do maior crédito junto ao Sr. Presidente da República, que o convidou a visitar o nosso país, e junto ao Sr. Ministro da Fazenda. O comércio do Rio de Janeiro e de São Paulo, que reclama contra as restrições por vezes drásticas do crédito bancário, encontrou nas palavras daquele grande economista um apoio digno de toda atenção, pois é certo que a luta contra a inflação autoriza o Governo a exigir das classes produtoras os maiores sacrifícios, contanto que esses sacrifícios não estejam sendo inutilizados por se gastar exageradamente de um lado tudo que se economiza com tanta severidade do outro.