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27-03-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Quarta-feira, 27 de Março de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


A marcha da apuração do pleito paulista já deixa entrever, com escassas possibilidades contrárias, a vitória do Sr. Adhemar de Barros sobre as forças políticas que se uniram ao Governador do Estado para apoiar o Sr. Prestes Maia.

A história democrática dos nossos dias está cheia de exemplos de triunfos eleitorais de candidatos de segunda ordem, cuja escolha prova uma preferência emotiva, mas não traduz reconhecimento de capacidades.

Faltava, é verdade, ao confronto eleitoral de domingo a possibilidade de um desfecho realmente construtivo, em que se afirmasse a supremacia de uma força dotada de elevação cívica e de sentido social.

O pleito travou-se, não entre dois demagogos, nem entre dois líderes representativos de correntes contrárias, mas entre um desses expoentes da demagogia e uma formação espúria de forças políticas, unidas em torno da figura de um técnico de merecimento, com o destino político já deteriorado por mais de uma experiência eleitoral malograda.

O nome do Sr. Prestes Maia não era levado às urnas por coisa alguma que exprimisse autenticidade. O Governador de São Paulo, que o avalizava, não conseguiu transferir-lhe, como não consegue nenhum demagogo, uma parcela substancial dos atrativos políticos, que o tem conseguido impor aos eleitores. O Partido Comunista trouxe ao Sr. Prestes Maia a parcela de descrédito necessária para incompatibilizá-lo com muitos elementos conservadores, e não lhe deu em contrapartida qualquer parcela de confiança popular. E os fragmentos do P. T. B. que se agregaram em torno do candidato não fizeram senão provar, uma vez mais, que o P. T. B. não é um partido de clientelas organizadas, suscetíveis de partilha e de deslocamentos parciais, mas uma corrente de opinião, cuja força é considerável quando se emprega maciçamente no ramo da sua verdadeira significação popular, e inexpressiva quando se divide em manobras de campanário.

Quanto ao Sr. Adhemar de Barros, não é justo pensar que as águas lustrais de um novo pleito lavaram a nódoa de descrédito de sua infeliz carreira de demolidor de valores, nem que a sua força política haja renascido para novas expectativas eleitorais.

O voto da cidade de São Paulo no Sr. Adhemar de Barros está aforado à interpretação dos sociólogos.

Seus efeitos políticos são, na verdade, bem limitados. Seriam grandes se o ex-Governador de São Paulo representasse uma corrente social em marcha, uma força em ascenção ou em luta, capaz de dinamizar o seu destino individual. Mas seu papel político começa e acaba na sua pessoa, e suas energias eleitorais se reduzem ao desempenho de um limitado papel de antagonista.

Mesmo como antagonista do Sr. Jânio Quadros, não se pode dizer que ele tenha tido domingo uma vitória decisiva. Certamente não veremos o Sr. Jânio Quadros, como sucederia, se fosse outro o resultado da eleição, descer, mistificador e arrogante, no Rio de Janeiro, para reclamar do Presidente da República parcelas maiores de influência na órbita federal. Mas dentro de São Paulo o Sr. Jânio Quadros vai certamente obter novas concessões dos esquálidos grupos que dividem o espólio da política paulista, e nesse sentido é lícito dizer-se que o episódio não leva a desfecho definitivo.

O que é, porém, definitivo e de indisfarçável gravidade no pleito de domingo e no seu resultado, é o que ele testemunha de dramático na atualidade de nossa vida pública: a total irrelevância dos padrões éticos para a definição da linha de conduta dos partidos, e a profunda cisão entre o povo e a classe política, que perderam o respeito recíproco.

Só em sinal de desapreço e de revolta contra uma vida política, que se tornou estéril e sem sentido, é que o povo da mais culta cidade brasileira pode ter posto de lado tudo que o afastava do Sr. Adhemar de Barros para fazer da escolha do Prefeito um prélio de simpatias. Essa é a advertência que aos homens responsáveis fez o eleitorado de São Paulo num pleito amargo e cheio de lições.

REDE FERROVIÁRIA FEDERAL

O aparelhamento do país para as tarefas do desenvolvimento econômico depende de reformas administrativas capazes de tornar mais eficiente o serviço público, sobretudo nos setores de maior repercussão na atividade privada.

Ao examinar o problema do transporte ferroviário, a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos verificou que o reequipamento material das nossas ferrovias era inseparável de sua reestruturação administrativa. De outro modo, os financiamentos obtidos iriam dispersar seus efeitos e onerar o país, sem que as empresas lograssem normalizar seus níveis de funcionamento e rentabilidade.

Daí nasceu o estudo e afinal o Projeto de criação de uma entidade que permitisse operar as ferrovias do Estado segundo os princípios mais salutares da economia de livre empresa, e eximi-las da influência prejudicial das mutações políticas sobre as administrações. Foi esse Projeto, que depois de enfrentar as vicissitudes de uma tramitação parlamentar difícil e a incompreensão dos partidos, afinal converteu-se na Lei n. 3.115, de 16 de Março corrente.

Embora a primitiva ideia tenha sofrido algumas derrogações, a Lei pode ser considerada um dos passos mais efetivos no caminho da modernização administrativa do país. Ao sistema improdutivo das autarquias e repartições substitui-se a estrutura simples e flexível de uma companhia comercial, cujas ações são inicialmente subscritas pela União, mas podem ser vendidas, ainda que em parte reduzida, a entes públicos e a particulares.

Onde é de lamentar a deformação do projeto primitivo, é no tocante ao sistema de administração colegial, que deixou praticamente de existir, uma vez que o Conselho deixa de escolher o Superintendente da Rede e de ter a faculdade de demiti-lo, para passar a ficar sob sua autoridade.

Digno de nota é o fato de a Rede assegurado o reajustamento das tarifas sempre que crescem as despesas do seu custeio, ficando a União obrigada a votar recursos explícitos para subvencionar os serviços, quando o reajustamento lhe parecer inoportuno. Essas e outras medidas iniciam entre nós o combate indispensável ao sistema de subvenção oculta dos serviços públicos contido na prática antieconômica de não rever tarifas e de encampar os prejuízos verdadeiramente calamitosos das autarquias.

Vai a Rede Ferroviária entrar em experiência. É o momento de lhe assegurar o Governo um Superintendente de elite, escolhido entre os grandes ferroviários de que dispomos, e de lhe proporcionar autoridade e liberdade para o êxito da implantação.

DEFESA DO ATLÂNTICO SUL

Notícias colhidas pelo “Jornal do Commercio” fazem saber que se reunirá em Buenos Aires uma conferência preparatória, com o objetivo de estudar a defesa coletiva do Atlântico Sul.

A reunião já é em si mesma, independentemente de seus resultados, um acontecimento transcendental, pois marca um passo decisivo para a melhor integração política da América, precisamente num terreno onde os benefícios são imediatos: o militar.

Entre a política de segurança nacional dos nossos dias e a do início do século, corre uma diferença capital. Outrora as nações americanas elaboravam seus planos militares considerando sobretudo o risco da guerra no próprio continente, entre um pais americano e seus vizinhos. Hoje a agressão que nos preparamos para conter é sobretudo a agressão oriunda de outro hemisfério, e por isso as nações americanas aparecem unidas por um objetivo comum, que as coloca em colaboração, e não em antagonismo.

Os primeiros passos para a formulação desta política foram o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, assinado no Rio de Janeiro, e a criação da Junta Interamericana de Defesa. A reunião de Buenos Aires virá marcar uma nova e importante etapa na direção desse objetivo, que todos os países hoje perseguem nas áreas geopolíticas a que pertencem.

É indispensável saber com que pensamento político o nosso país se prepara para a reunião de Abril em Buenos Aires. Poucos encontros internacionais terão tanto alcance como este que à primeira vista pode parecer mera troca de pontos de vista técnicos entre chefes e peritos militares.