San Tiago Dantas

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23/08/1931

VIDA MUNICIPAL III

A luta no ambiente acanhado dos municípios começa sempre pelo descontentamento dos que não obtiveram, na partilha dos cargos, os lugares que aspiravam. Cada um tem o seu plano de bem governar a localidade e não se conforma com as medidas postas em execução pelos que exercem o governo local. De sorte que as críticas começam o seu papel demolidor, nas rodinhas das farmácias, dos bilhares, onde se comentam negócios públicos. O jornal da terrinha, quase sempre ligado à Câmara Municipal, prestigia naturalmente os detentores do poder. Mas a imprensa da oposição passa a ser substituída pelo diz que diz das esquinas. Circulam verdades cruas e circulam também calúnias. E os ânimos vão se exacerbando. Até que um dia, um dos homens qualificados, importantes na localidade, que exerce um cargo e faz parte do grupo governamental, briga com os seus companheiros, por exemplo, por causa da remoção de um delegado de polícia, ou pela nomeação de uma professora para o grupo escolar. Esse cidadão, cheio de brios, indignado, rompe com os seus amigos e chama em torno de si todos os descontentes. E está formado o partido da oposição.

A primeira coisa que faz esse partido de oposição é oficiar a comissão diretora do partido que estiver com o governo do Estado nas mãos, para hipotecar o “mais decidido apoio e inteira solidariedade”.

Organiza-se o diretório que vai pleitear as graças do governo estadual. Faz-se um rateio para as despesas, mandam-se emissários para as roças, a fim de avisar os fazendeiros e sitiantes de que está fundado um partido que vai pleitear a “diminuição de impostos’: que vai “pôr em ordem os dinheiros da Câmara”, que vai fazer melhoramentos.

Em seguida, o chefe do novo partido, homem de boa vontade, mas dispondo de uma cultura que nem sempre se pode comparar à de um Ruy Barbosa, confabula longamente com o “mentor do partido” sobre os planos a serem postos em execução.

Esse “mentor do partido” é uma das figuras mais notáveis da vida política dos municípios, por consequência, do Brasil.

Quase sempre é um bacharel formado, ou um solicitador, ou um tabelião, ou um jornalista, ou um professor público ou particular, ou um farmacêutico, ou dentista. É o homem que sabe as coisas. Conhece a fundo as leis eleitorais, o Código Penal, os formulários, as questões de posturas, e leva sobre os outros a vantagem de ler os jornais, pelos quais se enfronha do que se passa na política geral. É o homem que impetra habeas corpus, que organiza mesas eleitorais, que escreve os ofícios do diretório e as cartas de recomendação e de intriga. Ele é o supremo orientador do partido.

Se esse “mentor” é um homem bom, de caráter íntegro e coração bem formado, e se o seu partido vier a dominar, as coisas correrão a contento no município, haverá uma relativa felicidade local; agora, se ele for um indivíduo de instintos maus, temos em perspectiva perseguições, opressões de toda a espécie. Porque esse cidadão é o oráculo, e a ele, de preferência, devem se dirigir os grandes chefes da política geral do Estado, pois nele é que reside a maior força local. Veremos a sua atuação, quando entrarmos no estudo das relações entre o partido estadual e os partidos municipais.

Pois bem. Depois de confabular com o “mentor”, o chefe da nova agremiação apronta a valise e vai para a Capital, para falar com os graúdos. Vai primeiro à comissão diretora do partido que está mandando e que dispõe dos cargos.

Essa comissão diretora constitui, por assim dizer, o grande sindicato que industrializa para os fins superiores do Estado a matéria prima da vontade geral, expressa no dualismo das facções em luta nos municípios.

Estudar, por exemplo, o que a comissão diretoria do P. R. P., é retratar o que é a comissão diretoria do P. R. P., é retratar o que é a comissão diretora do P. R. M. ou do P. D.

Aqui, no Estado de São Paulo, o processo de unificação dessas forças perfeitamente dissociadas dos municípios sempre foi o mesmo tanto para o P. R. P., como para o P. D. Pois nenhum dos partidos poderia fugir à mais premente das realidades brasileira, que é o espírito municipal. Tanto mais fraco se tornava, e se torna, um partido estadual, quanto mais pretende acenar aos municípios com aspirações de ordem geral. Realmente, se ao operário dos centros industriais, o que interessa diretamente é a questão dos salários e dos horários, ao munícipe, seja qual for a sua classe ou condição, o que imediatamente interessa é a questão dos melhoramentos locais e da proteção das autoridades.

Pretender impor outra sorte de interesse ao proletário, ou ao munícipe, é contrariar, não somente uma realidade brasileira flagrante, mas uma índole humana irremovível em todos os países. Pretender um partido meter na cabeça do operário que o seu problema é o da escolha do prefeito, o da nomeação das autoridades, é o maior dos absurdos, pois.

A Razão, 23.08.1931.