San Tiago Dantas

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23/08/1931

VIDA MUNICIPAL IV

Verificamos, em nossas últimas notas, que a vida municipal repousa no interesse local. Vimos que toda a questão dos municípios é a da administração da cidade, centro comum de todas as atividades agrícolas e comerciais.

Não há motivo algum que possa obrigar o município a pensar nacionalmente; ele pensará sempre a seu modo, segundo os imperativos das suas necessidades.

Pouco se lhe dá que estejam à frente do governo do Estado, ou da União, tais ou tais homens, portadores de tais ou tais doutrinas, de ordem social, econômica, financeira. Só terão o apoio do eleitor municipal aqueles que garantirem a permanência no poder local dos chefes do seu grupo.

Os municípios não têm, por outro lado, quaisquer ligações com os seus vizinhos. Cidades do mesmo distrito eleitoral cuidam cada uma de sua vida, não tomando conhecimento de assuntos que digam respeito à zona, em geral. Acontece até que, quase sempre, as aspirações dos municípios vizinhos são antagônicas. O traçado das estradas de ferro ou de rodagem vem frequentemente pôr em evidência o egoísmo das localidades do interior, que, nesses casos que envolvem problemas de transporte, nunca apreciam as consequências úteis à região, mas exclusivamente as que falam direto aos municípios.

Como, portanto, captar essas energias isoladas, até mesmo dissociadas, num todo, com feição estadual ou finalidade nacional?

Quem estudar a ação do P. R. P. em São Paulo, ou do P. R. M., em Minas, verá como essas organizações agiram habilmente, em face da grande realidade. A Comissão Diretora do velho partido paulista, por exemplo, encontrava na própria luta que dentro dela se travava entre os seus membros, pela disputa das hegemonias regionais, a chave para a solução desse problema, que era imprimir uma fisionomia uniforme estadual aos corpos eleitorais dos municípios.

A Comissão Diretora tinha em quase todas as grandes zonas do nosso Estado duas influências políticas que disputavam a primazia. Quando se dava um rompimento municipal, como vimos, o primeiro trabalho do novo partido local era oficiar aos chefes do partido dominante hipotecando-lhe inteiro apoio e perfeita solidariedade. Em seguida, esses oposicionistas vinham à Capital pleitear o diretório, sob a alegação de que contavam maior eleitorado, gente melhor, mais honestos, dispondo de maiores recursos para os despendidos com as eleições, etc.

Pelas conversas que o emissário entabulava, logo via que o seu antagonista local contava com a proteção de Fulano, membro prestigioso do P. R. P.

E, ou o emissário sabia, ou alguém lhe contava, que na zona onde pontificava esse chefe, havia o chefe Beltrano, de igual prestígio, que aspirava o predomínio em todos os municípios.

A aliança não tardava entre o novo partido de oposição local e Beltrano, que pretendia derrubar Fulano no distrito.

Realmente, a luta estava travada na zona. Nas localidades onde Fulano contava com o diretório, Beltrano orientava o partido da oposição; e naquelas onde Beltrano é quem tinha sob sua responsabilidade o grupo detentor da situação municipal, Fulano dirigia a facção adversária.

A Comissão oscilava entre um e outro chefe, ora realizando acordos meio a meio, ora dando a maioria a um grupo e a minoria a outro, ora atendendo a pedidos dos que nem tinham um único membro no diretório, com evidente desprestígio deste, ao qual explicava que a coisa partira do senador ou deputado tal, que se dirigia diretamente ao governo, o que era uma massada; mas que convinha aguardar com paciência uma solução definitiva; que os bons amigos se conheciam nas ocasiões, e que tudo isso era natural em política.

E assim se apaziguavam os ânimos, conservando sempre o P. R. P. a sua unanimidade nas eleições estaduais ou federais, pois quer um grupo, quer outro das localidades, por mais descontente que estivesse, sempre nutria a esperança de se arranjarem as coisas melhor, dentro em breve.

Essa contemporização era o grande segredo do P. R. P. E ela se possibilizava, pela própria divergência entre os seus paredros, senadores e deputados, que, por sua vez, refletindo a própria psicologia municipal, não rompiam com o Partido, porque aguardavam dias melhores.

Dessa forma, o P. R. P. (e o mesmo acontece com os outros partidos do Brasil, inclusive esses que fizeram a Revolução) mantinha a sua fachada, a sua perfeita unidade no voto unânime dos parlamentos estadual e federal.

Dentro do P. R. P., todos se queriam comer vivos. Todos se detestavam cordialmente. O ódio mais feroz roía as entranhas desses políticos uns contra os outros, e ninguém diria que, esses homens polidos, tão fraternalmente unânimes nos debates em que se empenhavam com os escoteiros oposicionistas eventualmente surgidos, tinham a alma negra de revoltas e amarguras, o coração fervendo, numa tragédia surda, que laborava nas entranhas mais profundas do Partido.

Continuemos a apreciar as relações entre os partidos estaduais e municipais, e iremos vendo uma série de realidades que definem ao vivo a psicologia da política brasileira, originada na própria psicologia das nossas populações.

A Razão, 23.08.1931.