San Tiago Dantas

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22/08/1931

VIDA MUNICIPAL II

A vida municipal, do ponto de vista político, se expressa pela disputa do poder local. A população do município se divide em habitantes da cidade e das sedes dos distritos de paz, e habitantes das roças, constituídos de fazendeiros, de sitiantes, de agregados, de jornaleiros, colonos e pequenos comerciantes de beira de estrada.

A aspiração da população da cidade, como das sedes dos distritos de paz, é a boa administração municipal, traduzida nos arranjos das ruas, no seu calçamento, na construção de bueiros e sarjetas, na canalização de água potável, no serviço de esgotos, na iluminação, nos cuidados com o pequeno jardim onde, nos domingos, toca a banda de música e as moças fazem o footing, enfim, toda uma série de pequenos melhoramentos e progressos com que a localidade pretende fazer inveja às circunvizinhanças.

Além dessa aspiração, que é geral, existem as aspirações de ordem particular, isto é, dos cargos e dos empregos. As pessoas mais qualificadas sentem prazer em tomar parte na administração local, querem ocupar lugares de prefeito, presidente de câmara, vereadores, suplentes de delegados de polícia, subdelegados e seus suplentes, suplentes de substitutos de juiz federal, juízes de paz, etc. Esses são os comerciantes, os capitalistas, os fazendeiros que têm casa na cidade, os advogados, médicos e farmacêuticos. As pessoas de menos posses pretendem exercer cargos públicos remunerados, como sejam os de coletor, estadual ou federal, escrivães dessas coletorias, tabeliões, professores do grupo escolar, tesoureiros das câmaras, fiscais das mesmas, etc.

Quanto às populações rurais, o que querem é ter na cidade autoridades amigas, prefeitos e coletores que relevem multas, que facilitem o pagamento dos impostos; tabeliões que os orientem nas questões do foro; delegados e subdelegados que soltem presos, nos casos de prisão correcional; um diretório político que tenha força para fazer nomear inspetores de quarteirão, que é a autoridade do bairro, e para fazer substituir os delegados que não atendam aos pedidos da população roceira.

Não há outras aspirações nos municípios. Dizer que há outras preocupações, de ordem estadual ou nacional é mentir descaradamente. É deturpar a fisionomia mais verdadeira, mais fortemente expressiva do povo brasileiro. Em 40 milhões de habitantes, esse é o “modo de vida”, essas são as aspirações de, pelos menos, 35 milhões de habitantes.

É sobre essa realidade que se fundou a existência dos partidos no país. É ainda sobre ela que deveremos basear toda a construção do Estado brasileiro.

Conhecidas as condições de existência das cidades do interior, vejamos como se processa a sua atividade política.

Antes de mais nada, é preciso nos convencermos que os partidos municipais têm uma finalidade exclusivamente local. O município tem objetivos absolutamente diversos do Estado, conquanto encontrem um ponto de contato comum, que é o desejo de progresso e bem-estar que, em última análise, constitui a aspiração geral do Estado.

Desse modo, a organização partidária do município se processa: ou pela unanimidade em torno de um chefe, ou pela dualidade de correntes, cada qual girando em torno de um chefe ou de um grupo.

No primeiro caso, temos o verdadeiro regime de clã; o regime patriarcal, em que domina uma família sobre todos os munícipes. Reina paz na localidade, alguma opressão ou arbitrariedade, mas, apreciando-se bem, o chefe da comarca, ou município, é sempre o amigo de todos, o juiz das pequenas questões, o apaziguador de desídias, a figura respeitável e bondosa que todos procuram nos momentos de necessidade. É esse chefe o padrinho de quase todos os casamentos e batizados; à sua sombra se reúnem os homens qualificados, para tratar dos interesses da terra; as autoridades estaduais e federais agem de acordo com ele, procurando a linha da equidade nas decisões da justiça.

Esse chefe político, invariavelmente, apoia o governo estadual. E é somente através deste que prestigia o governo federal, pois é o governo, também, que o atende em todos os pedidos de nomeações, remoções e demissões que ele formula, como presidente do diretório local.

Se, porém, o município não tem a fortuna de congregar todas as vontades em torno desse patriarca, a luta está travada. Formam-se, então, duas correntes, que logo arranjam uma denominação: os “araras” e os “periquitos”; os “jagunços” e os “botões”; os “jacobinos” e os “maragatos”; os “pica-paus” e os “tico-ticos”.

Conforme a época do ano em que a luta principiou, as primeiras escaramuças se operam, ou em torno das eleições municipais, para conquista da câmara, que já facilita a conquista do “diretório reconhecido” pelos chefes da capital, a fim de se obter o diretório, que facilita a vitória nas eleições do município.

Os dois partidos não se interessam, em absoluto, pelos rumos da política estadual. Que os chefes do Estado apoiem tais ou tais homens na política federal ou que adotem tais ou tais ideias, isso é perfeitamente indiferente aos municípios. Tanto o partido da “situação” como o partido da “oposição” apoiam o governo do Estado.

E apoiam por uma razão muito lógica, perfeitamente explicável, que os idealistas utópicos não querem compreender, que os sociólogos apressados não querem distinguir, que os demagogos das capitais populosas nem chegam a sonhar: a finalidade local dos partidos municipais.

Num país, onde não estão objetivados pela política interesses de classe, de religião; onde as instituições criam uma ordem de interesse puramente intelectual (nacionalidade, soberania, moral, cívica, etc.); onde as leis facultam e protegem as mais amplas liberdades individuais, que agem soberanamente no comércio, nas indústrias, no proletariado; num país onde os candidatos à representação prometem a ”grandeza do Estado’; mas não se referem aos pequenos problemas locais que dizem mais de perto com a vida real do indivíduo; e num país, finalmente, onde todos os interesses materiais vivem, agem, se organizam e se agitam fora do espírito e dos preceitos institucionais da nação, nada mais natural que o homem trate, em primeiro lugar, e com o maior dos empenhos, das coisas que lhe são mais próximas. Além do mais, cumpre observar que, tendo sido o Brasil uma terra de conquista, de aventuras de toda a sorte, de vasta extensão geográfica, foram criados no seu território núcleos e acampamentos, sem ligação fácil, que obrigaram o habitante a ver tão somente o que lhe estava em redor, e a apreciar problemas muito imediatos. Essa psicologia foi sempre agravada pelo próprio espírito de aventura pessoal, que o período de imigração acentuou, e que imprimiu um caráter de marcado individualismo ao processo da vida das nossas pequenas cidades.

Continuemos, em nossa próxima nota, este curiosíssimo tema.

A Razão, 22.08.1931.