San Tiago Dantas

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21/08/1931

VIDA MUNICIPAL I

Já que estamos no capítulo das realidades brasileiras, apreciemos uma delas, talvez a de maior significação na vida do país: o município.

O município constitui a base de operações dos nossos partidos políticos, tanto na velha como na nova República. É o município que governa o Brasil. É ele que produz o tipo do político, do homem de partido, do homem de Estado, que vai ter nas suas mãos os destinos da nacionalidade.

Pode-se mesmo afirmar, sem nenhum receio de erro, que no Brasil o conceito de Nação tem origem puramente intelectual, ao passo que o conceito de município tem origem profundamente sentimental. E pode-se avançar, com toda a segurança, que a ideia do município se sobrepõe à ideia da Nação.

A nossa organização econômica, tendo fundamento na agricultura, na propriedade individual, sem uma maior coordenação de interesses, não chegou ainda a criar, mesmo na lavoura, um sentimento de classe; talvez esse processo de desenvolvimento se tenha começado a efetivar em São Paulo, em certas zonas, onde se formaram companhias, sociedades, sindicatos de exploração da lavoura cafeeira; mas esse fenômeno que começou a se esboçar desde a época das primeiras valorizações*, não chegou a alterar a fisionomia geral das nossas zonas rurais, com a impessoalização da propriedade.

Por outro lado, as nossas indústrias só agora estão determinando em centros mais populosos os movimentos de proletários, ou burgueses, num sentido de interesse de classe. Excetuadas as capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Bahia e certas cidades como Santos, Campinas, Ribeirão Preto, Juiz de Fora, onde a luta de classes já assume os aspectos comuns a todos os povos, o resto do Brasil não fundamenta a sua política no sentimento de solidariedade do trabalho ou do capital organizados. Nestas condições, cumpre ao estudioso descobrir em que se firma o “interesse” partidário das nossas populações. O que será absurdo é supor que seja possível a organização de um partido sem base de interesse prático, imediato.

Ninguém se mete em política sem uma ambição qualquer, sem um desejo de melhoria que reflete diretamente no indivíduo. Entrar para a política sem uma ambição constitui mesmo uma imoralidade. A política visa um bem-estar que, mesmo quando seja de ordem geral, vem influir na vida do cidadão.

Quando uma pessoa consente em fazer parte de um clube, de uma associação, de um negócio, de uma instituição, ela não vê apenas os interesses gerais, impessoais da organização a que aderiu: vê, principalmente, as vantagens que lhe tocam por fazer parte de tal organização. Ninguém aceita um convite se não tiver um interesse oculto. Por mais que um homem afirme que está agindo desinteressadamente, no fundo ele age por egoísmo. Essa teoria de abnegação chega a iludir aqueles mesmos que a confessam, e ilude de tal forma, que o indivíduo passa a ignorar a surda elaboração dos desejos, dos apetites e ambições que lavram, por assim dizer, no rés do chão do seu espírito, sem que o último andar, a fachada, tenha conhecimento disso.

Os homens públicos em geral, de todos os partidos, de todas as situações, se sugestionam de tal maneira, que acabam se acreditando grandes beneméritos da pátria, indivíduos desinteressados, padrões de honestidade e de inteligência. E começam a exigir que todos se comportem da mesma maneira, isto é, que nada desejem, que abram mão de posições, que tenham sentimentos de ordem geral. Com essa cantiga, pretendem obter o apoio de todos os seus concidadãos. E a querer que toda a sociedade viva em função de realizar ideais superiores.

Os políticos que assim se iludem terminam mal, como o velho Scipião, o Africano, exclamando cheio de ressentimentos contra Roma: “ingrata pátria, não possuirás meus ossos”. Porque se o povo, considerado coletivamente, aceita ideias gerais, o indivíduo, que compõe a massa, quer que lhe acenem com esperanças muito particulares: de empregos, de posições, de prestígio, de glória, ou de poder.

Quando a política se efetiva num sentido de luta de classes, o que o adepto de um partido quer é que seu grupo triunfe, de modo que seja garantida a todos os seus membros (e por consequência a ele, em particular), o alimento, a roupa, os prazeres; essa é a psicologia do capitalista e do proletário. Mas, quando a política se realiza, como no Brasil, fora de órbita da luta de classes, é preciso descobrir o interesse que costuma falar mais alto no espírito dos cidadãos.

Somos 40 milhões de habitantes, que vivemos de uma “certa maneira”. É essa maneira de viver em sociedade que deve influir em nossos sistemas de governo.

Se seguirmos na pista dos partidos para verificar onde vão buscar eles as forças com que lutam, não os encontraremos ( excetuadas as grandes cidades industriais) à porta das associações de classes, dos grêmios profissionais, dos sindicatos obreiros, nem mesmo das sociedades burguesas de agricultura, de indústria ou de comércio. Nós vamos encontrar os partidos atuando nos municípios.

É ali, portanto, que reside o “interesse” capaz de ligar os cidadãos. Qual o processo por que se efetiva essa ligação de cidades e comarcas e, em seguida, de zonas inteiras, na expressão dos partidos estaduais?

Seja esse o assunto de nossa próxima nota, pois vale a pena dedicar uma atenção muito viva para o fenômeno que tem sido decisivo nos destinos brasileiros: o espírito municipal.

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* Valorizações do preço do café, promovidas pelo governo.

A Razão, 21.08.1931.