San Tiago Dantas

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16/08/1931

PRENÚNCIOS DE LUTA

O movimento pró-Constituinte que partiu do Rio Grande do Sul, arrastando consigo, ao que parece, o grosso da opinião popular, não encontrou até agora uma voz forte que se elevasse em contrário. Tomou o aspecto dos movimentos unânimes. E quando o ministro da Justiça se manifestou, ainda que muito ligeiramente, em seu favor, ninguém mais duvidou que estivesse assentada a política de constitucionalização imediata do país.

De fato, o ministro da Justiça é o expoente das duas correntes políticas que se supunham divididas em torno dessa relevante questão. É o expoente do civilismo gaúcho, e é o expoente também do partido dos tenentes, que era a facção de que se esperava um movimento anticonstitucionalista. E não se esperava sem razão. Os tenentes revolucionários vieram tomar depois de outubro, dentro da ordem ditatorial, a posição mais extremadamente antilegal que se assinalou. O major Távora foi o autor das ameaças do sequestro sumário dos bens, da justiça política sumária, o instaurador de uma boa parcela do pânico, que conduziu a sociedade conservadora a reclamar a Constituição, como garantia para os seus direitos ameaçados. Os tenentes interventores do Norte, por sua vez, vinham todos animados de um amor pelos métodos de administração violenta e sumária, enquanto os tenentes, grandes favoritos em alguns gabinetes militares, eram inspiradores do mesmo espírito e dos mesmos métodos, nos setores que atuavam.

Delineou-se assim com uma nitidez meridiana, o espírito antilegal, e portanto anticonstitucional, dos clubes 5 de julho1 e dos políticos militares. Quando, porém, se ouviu a voz do Sr. Oswaldo Aranha, indicando rumo diverso, ninguém pôs em dúvida que uma qualquer mudança se dera entre os tenentes, que teriam acordado na convocação da Constituinte, mediante certas concessões, ou até mesmo mediante certas imposições. Pois o Sr. Oswaldo Aranha sempre foi o chefe dos tenentes, e a sua palavra cobriria em qualquer hora, o pensamento político dessa facção.

Veio porém por essa época a renúncia do coronel João Alberto. A política de São Paulo, que era o apoio supremo dos tenentes, caiu das suas mãos, e passou a um regime de dupla soberania, uma interna, entregue a civis, e outra externa, no concerto das forças políticas, entregue aos generais. Deu-se então a “política dos tenentes como ferida de morte, e ninguém mais esperou dela um surto anticonstitucionalista e em favor da ditadura”. Previu-se que, extinta a sua política, os revolucionários históricos cedo ou tarde voltariam às conspiratas, e nos meios militares mesmo, esperava-se a qualquer hora uma revolução.

Não se extinguiu, porém, como se pensou, a política dos tenentes; perdido o apoio em São Paulo, ela começou a se reconstituir noutra parte, e quem abrir hoje os olhos sobre a nossa carta, verá que o Norte passou todo às suas mãos. A delegacia do Norte,2 aberração do senso legal que inspira a ditadura do Sr. Getúlio Vargas, depois de quase revogada, foi mantida e reavivada no seu prestígio. E aos poucos os interventores civis vão sendo substituídos por interventores militares. Cai o Sr. Álvaro Maia3 no Amazonas, para ser logo substituído pelo capitão tenente Rogério Coimbra.4 E do Maranhão sairá o Sr. Astolpho Serra,5 para ser substituído pelo capitão Serôa da Motta.6 No Ceará, em lugar do Sr. Fernandes Távora 7 teremos o capitão Carneiro de Mendonça.8 No Rio Grande do Norte já se encontra o tenente Cascardo,9 e em Alagoas se espera um interventor militar, que ao que parece só por circunstâncias particulares deixou de ser o capitão Góes Monteiro.10 E a instabilidade das interventorias civis é tão grande, que ontem caiu do poder o Sr. Arthur Neiva11 e fala-se na substituição do Sr. Lima Cavalcanti,l2 para o que se indica até o nome do tenente João Alberto.

Está pois reconstituído no Norte o apoio que o caso de São Paulo retirará aos tenentes. Uma a uma, as interventorias vão passando ao seu poder. E já se “sente” o major Távora, que nestes últimos meses estivera obscurecido no cenário político nacional.

Agora, além de tudo, uma notícia de suma gravidade, que causará inquietações aos que desejam a unidade da política brasileira, acaba de ser dada com reservas por alguns vespertinos. Fala-se da constituição de um “bloco nortista”, que se pronunciará contra a próxima convocação da Constituinte, quando a lei eleitoral já está às vésperas de ser aberta às sugestões populares. Talvez seja um falso sinal, no horizonte, mas nesse sinal nada há que nos deva causar espanto. É a política já declarada dos tenentes, no bloco estadual que eles dominam. Para ela nos prepararam os meses passados do governo revolucionário. E com ela temos prenunciada uma luta, cujos germes vieram nas fileiras da Revolução, e que oporá o civilismo gaúcho e mineiro, reduzido à forma da Aliança Liberal, do militarismo de 2213 e 2414 que dele difere por pessoas e por natureza.

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1 Organização política apartidária, também chamada Legião 5 de Julho, surgida em 1931 dentro do movimento de criação de legiões revolucionárias em todo o país, liderado pelos “tenentes”.  Desapareceu em 1934.

2 Delegacia militar, chefiada por Juarez Távora.

3 Álvaro Maia (1893-1969), político amazonense. Interventor federal no Amazonas em 1931.

4 Antônio Rogerio Coimbra, (1900-?), militar. Interventor federal no Amazonas de 1931 a 1933.

5 Astolpho Serra (1900-1978), interventor federal no Maranhão em 1931.

6 Lourival Serôa da Motta (1901-1947), militar. Interventor federal no Maranhão em agosto de 1931.

7 Fernandes Távora (1877-1973), político cearense. Interventor federal no Ceará de 1930 a 1931.

8 Carneiro de Mendonça (1894-1946), militar fluminense. Interventor federal no Maranhão de 1931 a 1933.

9 Herculino Cascar do ( 1900-1967), militar.

10 Góes Monteiro (1889-1956), líder militar da Revolução de 1930. Comandante da 2.• Região Militar (São Paulo) até junho 1931.

11 Arthur Neiva (1880-1943), político baiano. Interventor federal na Bahia em 1931.

12 Lima Cavalcanti (1892-1967), político pernambucano. Interventor federal em Pernambuco de 1930 a 1934.

13 San Tiago refere-se à Revolução de 1922.

14 San Tiago refere-se à Revolução de 1924.

 

A Razão, 16.08.1931.