San Tiago Dantas

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15/07/1931

A RENOVAÇÃO DO EXÉRCITO

“Nossa política militar deve corresponder às necessidades imperativas da nossa organização econômica”, diz em entrevista à Razão o general Leite de Castro.

Já disse alguém sobre o Sr. general Leite de Castro, 1 que ele conseguiu fugir à regra, dominante na mentalidade dos partidos brasileiros, da improvisação sistemática do trato dos assuntos do Governo. De fato, o Ministro da Guerra é um dos visionadores mais seguros e experimentados das nossas realidades militares, um dos que por isso mesmo mais fundamente alcançam, nos destinos da nacionalidade. Quando se julgar historicamente a Revolução de Outubro e se fizer entre os seus homens uma revisão de valores, abrir-se-á, para estudá-lo, um capítulo especial. Ele é, num momento de tão ampla desordem dos espíritos, e de uma tão apaixonada atuação para a sua classe, o homem excepcional que se consegue pôr de fora, esvaziar-se de todo arrebatamento partidário, e olhar a realidade friamente, como se fosse um espectador e não um personagem, no nosso tumultuoso cenário político.

Serenamente, olhando a questão militar em toda a sua nudez, o general Leite de Castro traçou há meses, numa entrevista aos Diários Associados, 2 o quadro mais exato e mais penetrante dos nossos problemas militares.

E o que desde logo o distingue como analista e político no meio em que age é que nele temos um Ministro da Guerra que não considera as construções de quartéis e a reforma dos quadros os problemas fundamentais do Exército. Mas ao contrário alguém que vai seguramente contra a “mentalidade administrativa”, que empolgou tantos chefes de Revolução, e vê que há problemas superiores a esses, que os dominam e ordenam, e, sem o trato dos quais, todo Governo terá feito obra precária.

Não foi certamente a falta de quartéis, a insuficiência de armas, o pequeno efetivo que criou entre nós a “questão militar”, posta em relevo já no Império, agravada na República, e fatal à ordem pública na série de revoltas de caserna que desde 1922 desaba sobre o país.

Não foi por simples deficiência técnica que se deu todo esse desvio das classes armadas, do seu campo natural de atividade para os campos das lutas políticas internas do país.

Foi por uma causa diversa e mais profunda que talvez ninguém como o general Leite de Castro, compreendeu e explicou: a falta de uma “política militar”, de um objetivo permanente para a ação do Exército, de uma indicação da finalidade histórica, traçada pelas fronteiras, que ele seria, em dado instante, chamado inexoravelmente a cumprir.

É para a fixação dessa “política” que o Governo precisava se voltar. Sem ela ter-se-ia uma tropa, mas nunca um Exército. E o que é pior, dessa tropa vinha uma constante ameaça para a segurança da Pátria, já que ela tomava a posição de um partido continuamente de armas na mão.

Não creio, porém, como parece crer o Ministro da Guerra, que na ausência dessa política estaria toda a causa da “questão militar’: estou antes com o que pensa o notável cronista político d’A Ordem, 3 Sr. H. Sobral Pinto, 4 quando atribui à introdução do “racionalismo” na educação militar a origem fundamental desses males. Pois, de fato, foi a educação racionalista, tirando à disciplina o seu fundamento natural que é a hierarquia, para dar-lhe um outro, a razão, que acabou por transformar a disciplina militar no seu sentido externo, lançando o individualismo no Exército, destruindo a unidade moral da classe, e fazendo de cada soldado ou general um juiz do Governo, e não mais um seu subordinado para a consecução de fins atinentes à expansão e à integridade nacional. Mas se atuou esse elemento positivo, – educação racionalista, como gerador da “questão militar’: atuou outro negativo, – falta de “política militar’: que determinou isso que o general Leite de Castro chamou “o espírito esportivo” dos quartéis, onde os homens se amestram sem aquele determinado objetivo de guerra, que qualifica e orienta o seu “espírito”.

Tinha, porém, a entrevista de abril, uma continuação. Como atuaria o Sr. general na pasta, em favor da sua ideia?

A “política militar” seria o fruto espontâneo de uma educação lenta, dada nos Estados Maiores, ou seria encaminhada por estudos imediatos, entregues a órgãos superiores do nosso aparelho político e militar?

Sempre pensei que seria do “Conselho de Defesa Nacional”, criado entre nós no governo Wenceslau, 5 que se poderia partir para a criação de uma política militar. Fui por isso ouvir a respeito o ministro da Guerra, que me recebeu ainda no quarto onde convalescia de longa moléstia que há pouco o atacou, e que me concedeu para A Razão uma longa entrevista, em que estuda o problema central da pasta que dirige.

– Um dos característicos do tempo de hoje é o de haver tornado os povos mais dependentes uns dos outros que dos próprios governos. 6 A elevação geral do custo de vida durante a grande guerra e depois dela, e a falta, em cada país, de um grande número de produtos, provam a interdependência industrial, comercial e financeira dos povos. É certo que as nações econômicas representarão um papel considerável na evolução dos povos futuros. Os povos são, não corpos puramente políticos, porém agremiações econômicas procurando adquirir e conquistar os recursos do mundo. O futuro de um país está ligado ao acréscimo de sua produção, à instituição de um industrialismo inteligente que consiga equilibrar a produção e o consumo. A nossa educação clássica é muito abstrata; urge que orientemos a nossa mocidade em estudos mais realistas, que lhe permitiam achar as leis do futuro do Brasil, em assuntos outros que os das construções da imaginação ou das impulsões do sentimento. O país tem grande necessidade de criadores.

– O Brasil que precisamos reorganizar tem necessidade de homens e de chefes. Porém seus chefes só serão dignos de sua missão e capazes de a realizar, se por um grande esforço conquistarem um método e disciplinarem os fatos sobre os quais quiserem operar.

 

– O que torna atualmente o progresso mais difícil em países novos, é que se precisa ao mesmo tempo destruir e construir, –  duplo esforço que geralmente intimida. O novo mundo que saiu da guerra só será dominado pelos fortes. Conheçamos o patriotismo militar, largamente proclamado; um outro surge tão importante quanto ele, o patriotismo econômico.

– Se quisermos verdadeiramente renovar o nosso organismo e reanimar o Brasil, é especialmente nele que devemos buscar as melhores energias.

– Não podemos continuar na nossa situação, com portos mal equipados, uma navegação fluvial arcaica, uma indústria longe dos progressos modernos, um comercio mal orientado e uma atividade nacional sem ordem e por conseguinte sem força coletiva. Impõe-se por isso uma transformação completa nos nossos métodos econômicos.

– Esta reconstrução só pode ser criada pela ciência. Sem grandes dificuldades poderíamos demonstrar como ela se liga fortemente à indústria, o elemento essencial da vida nacional. Semelhantemente, é ela que deve criar, de maneira durável, a potência das nações. Se atualmente as perdas de dinheiro, resultantes da falta de conhecimento científico, são já frequentes nas sociedades, o que acontecerá no futuro para os povos que se conservarem alheios à ciência?

– Porém a inteligência que concebe nada vale sem a vontade que executa. O pensamento nada vale sem a ação. Imitemos os povos que agem, e que hoje são muitos, e a nossa vitória será certa porque poucos possuem os grandes recursos do Brasil.

– Nossa política militar deve corresponder assim às necessidades imperativas da nossa organização econômica. Não poderá ter outras raízes que os próprios problemas sociais dominantes do país, nem pode ser firmada puramente pelos Estados Maiores sem um vivo exame da situação nacional. Conhecida essa situação – não a situação transitória, mas a situação permanente, subordinada a condições históricas e geográficas -, será então possível resolver os grandes problemas da defesa nacional.

– Eis porque penso que no trabalho de reorganização do Exército, que é o meu grande objetivo no Ministério, o ponto capital é o funcionamento e a perfeita organização do Conselho de Defesa Nacional, criado entre nós há mais de dez anos, e até hoje peça morta na nossa estrutura militar.

– Reputo esse conselho o órgão principal e indispensável a uma perfeita e racional defesa do país. Sem ele, e sem o seu funcionamento regular, dificilmente poderiam o Exército e a Marinha fundar as bases sólidas da sua organização, pois ela depende da política militar, traçada pelo governo, definindo o papel do Brasil no continente e no mundo, política que só o Conselho de Defesa Nacional poderá traçar convenientemente. Agindo de acordo com ela, dentro dos seus limites especiais, o Exército, a Marinha e os outros Ministérios buscarão realizar os seus outros objetivos, especialmente quando o Brasil atravessar a fase delicada da sua evolução de povo que se quer integrar na vocação histórica que lhe está fixada, pela grandeza do seu território, da sua população e pelas grandes riquezas que cobrem o seu solo.

– Nesse Conselho, que funcionará brevemente em reuniões secretas, sob a presidência do Chefe do Governo Provisório, com a presença de todo o Ministério e com a assistência dos Estados Maiores do Exército e da Marinha, vai-se enfim começar essa obra que o país teve a veleidade de até agora não definir e consolidar, – a da formação da nossa política militar. Definir-se-á primeiramente a orientação definitiva que as condições políticas e econômicas deverão imprimir ao Brasil na consideração dos seus problemas de guerra, e assim firmada uma política, sobre ela deverão seguir, ininterruptamente e sem desfalecimento, os governos que sucederem. Aparecerá do trato científico do problema, a nítida caracterização dos nossos objetivos de guerra. E os Estados Maiores traçarão os planos de organização e ação conjunta dos Ministérios da Guerra e da Marinha, para as possíveis operações bélicas que o Brasil será forçado a encarar, para o surto firme do seu progresso, e especialmente do seu desenvolvimento econômico. Esses planos serão completados por outros, contidos na especialidade de cada um dos demais Ministérios. Assim, ao Ministério da Fazenda está reservado um papel importantíssimo. Cabe-lhe cuidar do fornecimento dos recursos indispensáveis às fortes aquisições e material de guerra, a serem efetuadas, em anuidades, dentro de um determinado prazo, de acordo com as possibilidades do Estado.

Aqui caberia uma interrupção: o Sr. general Leite de Castro tem sido, no Exército brasileiro, um grande batalhador da ideia de substituir as compras de material bélico no estrangeiro pela fabricação desse material aqui.

O general fez um parêntese na sua exposição, para dizer:

– Tanto quanto possível farei por que se estimule as indústrias de armamento entre nós. Acho que os países forçados a fazer a guerra devem libertar-se das formas diversas de dependência do estrangeiro, e por isso cuidar quanto antes de atender, com recursos próprios, as suas necessidades de armamento. Em guerra, nem sempre é fácil, sobretudo quando não se conta com uma superioridade naval incontrastável, como é o nosso caso, manter o domínio dos mares para importar, livremente, o material bélico preciso. A solução, portanto, é procurar organizar, no próprio país, as indústrias militares que alimentam a guerra, bem como explorar as matérias-primas ou sucedâneos, indispensáveis a essas indústrias. Esse problema é tão importante que de antemão pode-se assegurar que, quando dois exércitos se enfrentam, terá mais possibilidade de vitória aquele cujo país se encontrar, internamente, melhor aparelhado nos recursos indispensáveis ao curso das operações.

– Creio entretanto que a fabricação de armamentos bélicos deveria ter, de preferência, um cunho civil. Seria mais útil, não só ao país como ao governo, mas esse desideratum não se pode alcançar para a totalidade das indústrias de guerra, porque muitas delas só podem viver do amparo exclusivo dos governos, dada a sua não utilidade em tempo de paz, em outros ramos da atividade nacional.

Encerrada a digressão, o Sr. Ministro da Guerra voltou ao assunto: a reorganização do Exército é a sua preocupação dominante.

O seu espírito de militar germânico anseia por enquadrar, num regime todo orientado para os grandes objetivos da vida militar e da finalidade guerreira, o Exército mal convalescido das agitações políticas de que participou. Fala-me das comissões técnicas a que entregou o estudo dos pontos capitais da Reforma e continua:

No momento atual o nosso Estado Maior trabalha ativamente na organização e na elaboração de tudo o que diz respeito aos próximos estudos a serem feitos no Conselho de Defesa Nacional, de modo a dentro em pouco poder se dar vida a um novo Exército que será a afirmação da vontade do governo da Segunda República de não querer mais que o Brasil se mostre indiferente pela sorte dos demais povos da terra, procurando ao contrário ser, dentre eles, especialmente entre os que mais de perto lhe tocam, um fator preponderante da paz que deve reinar entre os homens, e da felicidade que buscam todos esses povos. Assim procedendo o governo da Segunda República, nada inova na tradição brasileira. Reata apenas uma política que já foi praticada pelo Império e que a Primeira República abandonou lamentavelmente, para não dizer criminosamente.

A Razão, 15.07.1931.

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1 Leite de Castro (1871-1950), militar, ministro da Guerra de 1930 a 1932.

2 Diários Associados, cadeia de jornais de propriedade de Assis Chateaubriand.

3 A Ordem, revista católica fundada em 1921 por Jackson de Figueiredo e extinta em 1991. Em 1931 era dirigida por Alceu Amoroso Lima.

4 Sobral Pinto (1893-1991), advogado e escritor católico.

5 Wenceslau Braz (1868-1966), político mineiro, 9º presidente do Brasil 1914-1918.

6 O texto em itálico corresponde à transcrição da entrevista do general Leite de Castro.