San Tiago Dantas

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14/08/1931

PARTIDO DA LAVOURA

Na sessão de ontem do Congresso da Lavoura, voltou à baila o assunto que parece ocupar fundamentalmente as atenções das classes conservadoras rurais de São Paulo: a criação de um partido da lavoura. Os plantadores paulistas sentem a necessidade de fazer pesar na vida política os seus e para isso propõem-se a constituir-se em agremiação partidária, buscando assentar o seu partido numa base eleitoral extensa e criar para ele uma alta expressão política no cenário nacional.

É isso apenas a voz desorientada, mas profunda, das classes, que mostra, aos que consideram uma utopia política a sua integração racional no governo, como está viva essa realidade, para que os criadores de regimes ainda não quiseram se voltar. A lavoura, e como ela o comércio, a indústria, etc., não vivem numa ordem diversa àquela em que age e em que se forma o governo. Vivem sob a dependência dessa ordem, ligados a ela, dependentes da sua intervenção e das suas diretrizes, e contudo sem se fazerem ouvir diretamente, agindo através de influências ocultas sobre partidos ou sobre figuras do governo.

Agora, porém, a lavoura paulista quis falar mais claro sobre essa necessidade; seus altos interesses, que não são particulares, mas interesses do Estado e até da Nação, precisam atuar na eleição e na orientação do governo. E o precisam fazer agindo como um partido, como um só grupo político, que assim realizará a força máxima da lavoura, conjugando e harmonizando o seu prestígio e poder, hoje dispersos numa atuação sem finalidade determinada, e sem nenhuma ordem comum.

Não foi, entretanto, o alvitre surgido no Congresso de Lavradores, de encontro às verdades teóricas estabelecidas, a propósito de atuação das classes econômicas, na esfera do Estado. Um partido da lavoura, outro da indústria, outro dos bolsistas de Santos e da capital, por certo poderiam vir a dominar a política de São Paulo. Mas isso seria tão nocivo e precário quanto o regime das oligarquias políticas em que vivemos. Seria a subordinação à classe burguesa de toda a vida administrativa do Estado, e até mesmo a agravação da luta de classes, que aqui em São Paulo se esboça, como em todos os lugares do mundo onde não reine a justiça, e sim a força, nas relações do trabalho e do capital. Seria além do mais um principio de desequilíbrio que o regime democrático permite, mas não sei que doutrinas justificam. Pois o partido da lavoura dominaria, suponhamos, o partido da indústria que se formasse; e teríamos, não um governo com a sua política voltada proporcionalmente para os interesses de uma e de outra classe, mas o governo com tendência a favorecer apenas os interesses de uma, o que não seria um governo nacional.

Aliás, nos debates de ontem houve quem deixasse sem defesa a boa orientação a seguir no caso desse partido. Foi o tenente João Alberto que contra ele se pronunciou, reconhecendo a alta nocividade da orientação que o Congresso pretendia firmar. Mas, se o Congresso errou aconselhando um partido, não quis com isso senão exprimir a necessidade insofismável que têm as classes de se fazerem representar no governo do Estado. O que não se poderá é deixar que a luta seja o regime de vida entre esses “partidos”. Ter-se-á de organizar proporcionalmente e totalitariamente a representação, de modo que todas as classes, e não só as econômicas, tragam os seus interesses e aspirações ao concerto dos planos do Estado.

Se o governo do Sr. Laudo de Camargo quisesse fazer obra realmente política e duradoura no nosso Estado, inspirando-se nas solicitações que lhe fazem as próprias realidades sociais mais evidentes, não ficaria surdo à voz do Congresso da Lavoura, nem ao aviso do tenente João Alberto.

Cuidaria de organizar a lavoura, o comércio, a indústria, as classes intelectuais e liberais. Faria desse profundo alicerce a base do seu governo. Dar-lhe-ia uma atuação fundamental e definitiva na criação e no funcionamento do poder, iniciando com isso a maior empresa política dos últimos tempos que será a unificação do poder político e do poder econômico do Estado.

Se assim fizesse, o governo do Sr. Laudo de Camargo teria tido a estranha investidura de precursor de uma nova era política para o povo brasileiro, pois emanciparia São Paulo de meio século de República liberal.

A Razão, 14.08.1931.