San Tiago Dantas

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12/08/1931

NOVO ESPÍRITO

Os jornais estão debatendo largamente o discurso de saudação de um jesuíta que pronunciou perante um enorme auditório o Dr. Altino Arantes. Nesse discurso, o ex-presidente de São Paulo lança afirmações que importam numa tão alta restrição aos princípios democráticos, que nele estão querendo ver uma profissão de fé reacionária, a abjuração do liberalismo ortodoxo, que foi a base doutrinária do primeiro P. R. P., e que foi sempre o credo político do Sr. Altino Arantes. E com essa palavra, “reacionários”, o que se quer hoje em dia exprimir é o que verdadeiramente se denomina espírito de direita, ou reação contra a plenitude dos princípios liberais, quando estes atuam como entrave à ação da autoridade legal.

Já é querer avançar muito, porém, dar o Sr. Altino Arantes como um político de direita. No seu discurso nada há que prove a renegação do seu credo político passado. Há apenas com que se mostrem as tendências direitistas que o movimento revolucionário provocou no espírito dos homens de São Paulo, e que importa talvez fundamente a sua marca na reorganização do P. R. P. Talvez não na organização do programa, mas por certo na orientação dos métodos e na formação do espírito do partido. Pois as verdades só passam para os programas quando estão claras e pacíficas no espírito dos que as praticam.

Mas o “reacionarismo” ou melhor, o direitismo do P. R. P., não surgirá espontaneamente neste momento, nem representará uma evolução cultural dos homens do partido. Não será uma evolução de dentro para fora, uma evolução de ideias gerando outra de atos. Será uma evolução de fora para dentro, vinda dos próprios fatos externos para orientar em novo rumo a reação do partido, e só no futuro então receber a aprovação doutrinária dos chefes. Pois foi a experiência de outubro, aquela situação em que se viu o governo legalista de São Paulo, governo liberal nas ideias e liberal na prática, para conter uma revolução também liberal por dentro e por fora, foi essa situação curiosa em que se viu o mesmo princípio sustentar e ameaçar o governo, que tornou patente aos políticos paulistas que a autoridade precisa de outros alicerces que não lhe fornece o liberalismo e que agora mais do que nunca ia ser preciso governar com a força e com coragem e não mais com fórmulas e palavras. Vitoriosa a Revolução, perrepistas e revolucionários começaram a se afastar do centro liberal em que uns foram vencidos, e em que outros venceram, mas onde não se sentiram bastante firmes para conduzir a obra que empreenderam. E enquanto os revolucionários marchavam para a direita e para a esquerda, marcando um extremo com a Legião mineira, e outro com a Paulista, no espírito do P. R. P. manietado pela derrota, ia se formando o avanço para a direita, de que o discurso do Sr. Altino Arantes foi o primeiro rebate.

Acontece, porém, que aproveitará o P. R. P. o surto atual do liberalismo aliancista. Para que os partidos atuem desembaraçados e na plenitude das suas forças eleitorais, é preciso que passe a ordem discricionária, que pesa tão suavemente sobre nós. De modo que se torna difícil fazer previsões sobre a próxima exteriorização do P. R. P. É pouco provável que ele obedeça, ao menos de um modo radical, às suas tendências inegáveis para a direita. É mais provável que conserve a posição liberal, mas que dentro dela registre pequenos avanços de um pensamento político mais adiantado. Esse pensamento atuará depois, de um modo mais orgânico e total, na futura Constituinte. Por ora estará anunciado nas linhas do programa traçado e nas entrevistas dos líderes.

Aguardemos o pronunciamento do velho partido com otimismo, pois dele muito se espera como de todos que até agora não se pronunciaram.

A Razão, 12.08.1931.