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11-04-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Quinta-feira, 11 de Abril de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


A atmosfera política do país se vem deteriorando, nos últimas dias, sob a influência de diversos fatores.

Depois de alguns meses de calma, em que gradualmente se recriaram condições até certo ponto propícias ao trabalho e ao exame dos problemas, começou a inquietação a toldar o ambiente, pressagiando horas difíceis.

A insurreição do Congresso perante um veto, não para afirmar princípio ou fazer prevalecer uma norma de interesse geral, mas para arrebatar, a qualquer preço, uma vantagem material, através de um clamoroso tratamento de exceção concedido a seus próprios membros, e oferecido aos juízes que teriam de examinar sua constitucionalidade, abalou – profundamente e demoradamente – a consciência do país.

Todo abuso de poder torna frágil a posição de quem o pratica. O Congresso ficou fragílimo, depois de saciado o desejo da maioria de seus membros de comprar, através do câmbio livre, o automóvel, que o resto da população só adquire aos ágios elevados da categoria reservada a importações supérfluas.

A perda de autoridade moral do Legislativo contaminou, até certo ponto, o regime. Todos viram, com desgosto, o líder da maioria omitir-se no encaminhamento da votação de um ponto de honra, sem que seu imediato afastamento da função fosse, por ele próprio ou pelo Presidente da República, considerado necessário.

Logo a seguir, ou paralelamente, foi a opinião pública alarmada pela notícia de que um deputado, com a grave responsabilidade de líder do maior partido da oposição, havia divulgado, em abono de suas assertivas, um telegrama secreto, extraído, em texto, ao que parece, origina], dos arquivos da chancelaria brasileira pela inconfidência de um funcionário.

O choque moral causado pelo episódio, a cuja análise voltaremos em ocasião ulterior, deixou perplexa a consciência do país. Passados alguns dias, ainda acesos os debates, é difícil medir a extensão dos efeitos morais e políticos que podem decorrer de um caso, sob tantos aspectos, lamentável.

E o que é mais assustador é ver-se liberado pelo episódio o espirito de destruição, que na sua fúria de desmoralizar e demolir, parece inteiramente cego ao interesse superior da nação e de suas instituições.

Ninguém parece pensar, por exemplo, que o incidente põe em jogo, diante de todas as nações, o próprio decoro da nossa chancelaria, levando a seus últimos efeitos negativos a paixão vesana de um funcionário.

Diante dessa nova efusão de violência, o que se sente é que a política do país voltou a concentrar-se na mesquinha e estéril disputa em torno de reputações e de pessoas. As questões de interesse social, os problemas de cuja solução dependem o bem estar, o progresso e a verdadeira dignidade dos brasileiros, passam imediatamente para o segundo plano, enquanto os refletores da cena política se concentram para iluminar o seu espetáculo predileto: o duelo das injúrias e retaliações.

Nessa mediocrização da vida política, há culpa de todos. Os combates singulares entre o líder da maioria e o líder da UDN são espetáculos deprimentes de personalismo político, que hoje servem para açular ódios, para encorajar vinganças, mas que no futuro serão examinados como simples sintomas da persistência de um padrão inferior de vida pública na presente fase evolutiva da democracia brasileira.

Essas fúrias, em que a vida do país é confundida com a contenda das personalidades, estão longe de ser, entretanto, de resultado inofensivo. Não se esmaga, através deles, uma pessoa, nem se desmoralizam duas, ou mesmo muitas. Deles parte, e se irradia sobre o país, um clima de intranquilidade, de violência e de insegurança.

Querendo abafar seu próprio incêndio nas chamas, muitas vezes salvadoras, de um incêndio maior, não tarda que uma das facções em luta procure envolver nas paixões e doestos os militares. A provocação aos quartéis já faz parte dos métodos mais consagrados da política personalista.

As forças governistas querem incitar os militares, tanto quanto a própria oposição quer provocá-los. E a segurança das instituições fica, uma vez mais, na dependência do grau efetivo de imunidade, que as forças armadas hajam conquistado contra essas insídias de origem civil.

Quem expia as culpas dos agitadores políticos, são os industriais, comerciantes, técnicos, agricultores, profissionais, funcionários, militares e trabalhadores, que formam o povo organizado. As atividades econômicas, mais do que qualquer outra, são sensíveis à atmosfera de inquietude. que prenuncia as crises e gera o risco das soluções de continuidade.

O dia de ontem, na praça do Rio, foi de inquietação, mal definida, porém, generalizada. Não só a taxa do câmbio livre acusou reações bruscas, sem procura maciça que as explicasse, mas os negócios em geral se fizeram assinalar pelo retraimento.

Os profissionais da agitação personalista saíram a campo para perturbar, uma vez mais, a paz de que o país necessita para o trabalho. É indispensável que a crise seja vencida com energia e brevidade, se queremos evitar que ela caminhe em direção aos alicerces das instituições.