San Tiago Dantas

Obra >> Artigos >> Várias do Jornal do Commercio >> 10-04-1957

10-04-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Quarta-feira, 10 de Abril de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


É tempo de se medir, em face das dificuldades econômicas e dos problemas políticos do país, o que representa o projeto da mudança da Capital Federal. O sr. Presidente da República tem dado a esse plano uma parcela excepcional do seu entusiasmo e dinamismo, mas são poucos, mesmo entre os seus colaboradores, os que parecem compartilhar a sua confiança. Ao mesmo tempo, a Oposição, ou pelo menos parte dela, denuncia o projeto de Brasília como leviandade, em que se juntam a irreflexão de uma aventura e a incoerência de um gigantesco investimento improdutivo, planejado no seio de um programa que pretende ser anti-inflacionário.

Que representa, neste momento, o projeto de construção de Brasília, e da transferência da Capital?

Em primeiro lugar, não cabe ao sr. Juscelino Kubitschek a responsabilidade do plano. Este vem consagrado, de longa data. em dispositivo constitucional, parecendo constituir uma aspiração enraizada do povo brasileiro, a que o atual Presidente quer dar realidade. As vantagens e desvantagens do plano devem ser, portanto, examinadas sob o duplo aspecto da justificação permanente e da oportunidade.

Não é o sr. Juscelino Kubitschek o responsável pela mudança da Capital em tese, mas é ele certamente o responsável pela escolha da oportunidade.

As vantagens e desvantagens, entretanto, devem ser consideradas à luz das circunstâncias atuais, já que a alternativa aberta à decisão do Presidente era entre iniciar o projeto de mudança, ou adiá-lo para os seus sucessores. Escolheu ele a primeira solução, e o fez com evidente sinceridade, pondo a serviço do plano uma parcela substancial de sua reconhecida capacidade de propulsão.

As vantagens decorrentes da mudança não são difíceis de enumerar.

A primeira é de ordem psicológica. O deslocamento do centro de decisões políticas para uma cidade situada a milhares de quilômetros do litoral, modificará de maneira significativa a mentalidade do país. O novo clima criado será propício a uma renovação dos métodos administrativos, e o ponto neutro de observação, onde se terá colocado o governo, favorecerá sem dúvida um grau de objetividade maior nos negócios públicos.

A segunda é de ordem política. Governo e oposição sofrem hoje, no Rio de Janeiro, a enorme pressão dos interesses locais condensados nesta cidade e na vizinha Capital de S. Paulo. Em grande parte as decisões políticas são respostas a essa pressão, e a deterioração da vida partidária e eleitoral no sentido da demagogia é fruto do ambiente das grandes cidades. Em Brasília, poderão talvez, alcançar um dia os governos a atmosfera genebrina da construção e do criticismo sem quebra da paz.

Pode parecer que a essas vantagens se opõem, no plano econômico, apenas desvantagens. Mas a verdade é que, embora seja este o aspecto mais controvertido da questão, também revela algumas vantagens que podem ser tornadas decisivas, mesmo dentro das presentes circunstâncias. A mudança da capital significa uma reorientação dos investimentos públicos e privados na direção de uma área menos desenvolvida, com ampliação do espaço geográfico economicamente aproveitado, e representa também uma elevação do nível cultural e tecnológico do interior.

Há quem suponha que o desenvolvimento econômico pede um grau cada vez maior de concentração, e que, assim sendo, a descentralização fará cair o ritmo do progresso geral. A suposição é enganosa. A concentração é útil às novas iniciativas na medida em que se guarda uma relação proporcional com as economias externas (transportes, energia, armazenagem, etc.). Desde que a relação se torne desfavorável, o ônus da escassez de energia, do engurgitamento da circulação, e outros, faz com que a concentração se torne fator negativo.

Mudar a Capital, portanto, não constitui, do ponto de vista econômico, um absurdo. É verdade que os benefícios podem vir a ser anulados por uma execução ambiciosa e inadequada, que destrua os aspectos favoráveis do programa, tornando-o inflacionário.

Neste ponto, aliás, os críticos e opositores têm cometido exageros. Quando se diz, por exemplo, que as poupanças do país vão ser desperdiçadas em investimentos imobiliários na nova capital, omite-se que elas, em grande parte, iriam ser aplicadas, não no desenvolvimento da indústria ou da agricultura, mas no Rio de Janeiro, em obras exigidas pela condensação crescente da vida urbana e em edifícios públicos e privados.

Subestima-se, em outras palavras, a possibilidade de financiar parcela considerável do custo de Brasília, com a transferência de um local para outro, do mesmo potencial de investimento, e sem necessariamente reduzir a quota que ordinariamente vai ter a atividades mais produtivas.

Sem um balanço dessa transferência, é impossível saber até onde a nova Capital irá acentuar os efeitos da inflação.

Em outro editorial, o “Jornal do Commercio” procurará analisar essas precauções e medidas, indispensáveis para que o plano atinja aos fins visados, e produza benefícios sem se converter numa força negativa na luta contra a inflação.