San Tiago Dantas

Obra >> Artigos >> Várias do Jornal do Commercio >> 04-05-1957

04-05-1957

JORNAL DO COMMERCIO

Sábado, 4 de maio de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


O Sr. João Goulart ocupa, na vida política do país, uma posição controvertida. De um lado, tornou-se o alvo principal do antigetulismo, que lhe tem votado uma campanha de extermínio, mais intensa do que qualquer outra até agora endereçada contra um homem público. De outro lado, manteve-se, sobre ele, ainda que com menor intensidade, o halo de popularidade do Sr. Getúlio Vargas.
No curso do atual Governo, a evolução da atuação política do Presidente do PTB não vem sendo favorável. Está ele colhido num dilema, oriundo da acumulação de dois papéis dificilmente conciliáveis: o de Vice-Presidente da República e o de líder popular. Como líder, deve estar, tanto quanto possível, à frente das reivindicações populares, que são muitas vezes fonte de inquietação e dificuldades para o Governo. Como Vice-Presidente, deve ser um colaborador do Governo, uma personalidade isenta, alheia às competições que podem dividir a opinião pública, empenhado apenas no dever de preservar-se para a eventualidade constitucional da subida ao poder.
Se o Sr. João Goulart quer ser um líder popular, na ofensiva, deixa de ser um Vice-Presidente discreto. Se prefere ser Vice-Presidente, pode acabar deixando de ser líder, como sucedeu, aliás, a uma personalidade em tudo diversa – o Sr. Café Filho.
A essas dificuldades e contradições é que se deve, talvez, o frequente recolhimento do Sr. João Goulart à sua estancia nas Missões. Mas com essas ausências quem não se pode beneficiar é o PTB, que se acha privado de continuidade de chefia, a ponto de tornar-se, em 1956, um rosário de problemas, com perda de unidade e substancia. Grupos estaduais se emanciparam, fazendo, na base de interesses locais, alianças duvidosas com outros partidos, e criaram-se algumas vezes subdivisões profundas, em que se dilui a fisionomia do Partido.
Ora, o PTB é uma agremiação partidária, cujo sentido na vida brasileira não deve ser minimizado. Ele não é apenas, como querem os seus adversários e repetem os observadores superficiais, um resíduo do prestígio político de Vargas, recondicionado pelos seus sucessores. Deve-se ao PTB, pelo contrário, haver coletado e dirigido num sentido democrático a insurreição política dos trabalhadores contra os partidos de clientela, que conduziam a vida pública brasileira com eficácia decrescente e um sentido puramente patronal.
O que a personalidade do Sr. Getúlio Vargas fez até certo ponto – veicular as energias políticas das massas, dia a dia mais emancipadas, num rumo distinto do comunismo – o PTB, bem ou mal, institucionalizou. Se entre nós não se criou um movimento de esquerda de grande envergadura, sob a direção de agentes internacionais, é ao PTB principalmente que o devemos, e não aos partidos que lhe fazem oposição.
De fato, o fenômeno social mais típico do nosso tempo, e mais rico de consequências políticas, é a ascensão das classes populares, cujo nível de cultura vem aumentando, e cuja capacidade de autodeterminação se expande, enquanto o prestígio das antigas elites parece declinar. Essas classes populares em ascensão começam por abandonar os seus antigos líderes e já teriam, em grande parte, acabado por abandonar a linha democrática, se não tivessem sido acolhidas num movimento, que não chegou a ter, até hoje, a estrutura de um partido, mas que logrou emprestar rumos e limites à nova força eleitoral.
A esse partido está faltando, neste instante, uma chefia enérgica e eficaz, e o Sr. João Goulart, se pretende mantê-la, deve voltar-se para os seus problemas de estrutura e de orientação.
O ponto central das dificuldades é o PTB paulista. Em nenhum outro estado se acha tão avançado o processo social de emancipação das classes populares e de declínio concomitante da classe dirigente, razão pela qual o eleitorado paulista se tornou a presa fácil dos demagogos de ocasião.
Pois é em São Paulo que o PTB, em vez de se estruturar como um partido de massas, cujo sentido programático facilmente coincidiria com a aspiração média da população trabalhadora, está transformado numa constelação de minúsculas clientelas, divididas pelas rivalidades pessoais.
Em Minas Gerais igualmente o partido oferece a mais lamentável deficiência no que respeita à direção e à cobertura de responsabilidades. O que não tem impedido que o eleitorado nele procure um vínculo de afinidade social, quando é convocado aos pleitos.
Também é indispensável que o PTB, além de refazer os seus quadros e restaurar sua disciplina, reexamine sua linha de conduta política, especialmente no que respeita aos problemas de governo. O objetivo permanente do PTB deve ser o aumento da renda nacional, e sua melhor distribuição, mas nem por isso tem ele sabido escolher as atitudes condizentes com essa finalidade. Pelo contrário, endossando campanhas que aparentemente favorecem, mas na realidade prejudicam o trabalhador, o Partido, mesmo que obtenha simpatias a curto prazo, compromete a longo prazo seu prestígio e autoridade.
Igualmente errônea é qualquer identificação entre o trabalhismo e o estatismo. O maior incremento da iniciativa pública, num país como o nosso, não tem significado um aumento efetivo de produtividade, mas uma elevação de custos internos, que deprime em última análise o nível de vida do trabalhador.
Uma depuração das ideias doutrinárias que alimentam a consciência do Partido tem, num caso como o do PTB, importância que talvez não apresentem em agremiações partidárias de caráter mais personalista e menos social.
É para esses problemas do seu partido que o Vice-Presidente da República deve voltar os olhos nesta emergência. Suas qualidades de líder sindical parecem até agora superiores às de chefe partidário, como é próprio de uma personalidade em que o impulso é mais poderoso que a reflexão. Não podemos esquecer, entretanto, que o Sr. João Goulart é um político no apogeu de sua carreira, mas um homem público ainda em formação.
O certo é que o país precisa dos seus partidos, ou pelo menos daqueles que dão expressão a fatores autênticos de sua realidade social. O grau de desorganização a que está chegando o PTB não é um bom presságio para a nossa democracia.