San Tiago Dantas

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02-04-1959

JORNAL DO COMMERCIO

Quinta-feira, 2 de Abril de 1959
VÁRIAS NOTÍCIAS


Há dois anos, o “Jornal do Commercio” mudava de propriedade e de direção, por haver parecido a Elmano Cardim, que outros, um pouco mais jovens, deveriam tomar nos ombros a tarefa de reequipar o órgão veterano da imprensa do Rio, dando-lhe a modernidade gráfica que ele perdera.

Ao escolher o seu sucessor, Elmano Cardim e a ilustre senhora D. Dora Pacheco sabiam que estavam passando a bandeira a mãos que não consentiriam na menor diminuição do acervo moral da empresa, e que manteriam a qualquer preço a sua independência, fazendo da própria consciência a medida e o fundamento das atitudes.

Esqueceu-se, porém — e não foi o único a esquecer — que o preço da independência é muitas vezes a fragilidade, e assim não previu que a execução do programa de recuperação material, indispensável à sobrevivência do Jornal, exigia recursos financeiros em escala adequada, e não tão contados que não pudessem fazer face a circunstâncias imprevistas.

O novo proprietário calculou os recursos de que dispunha, e aceitou o risco, embora sabendo que este podia ampliar-se, mas disposto a não contar senão consigo mesmo, e com a colaboração intelectual de seus amigos mais dedicados. Suportou com paciência as incompreensões de uns e a malícia de outros, que lhe atribuíam recursos maiores do que os de que dispunha, e saiu para um programa a longo prazo, que começou a ser executado pacientemente para atingir os seus resultados ao cabo de três ou quatro anos.

 Infelizmente, porém, a 30 de setembro, um incêndio irrompia no velho prédio da Avenida Rio Branco, destruindo, em poucas horas, todo o equipamento gráfico da empresa. O seguro, calculado numa época em que o dólar de imprensa não estava sujeito a sobretaxa, não podia deixar de ficar muito aquém do custo dos equipamentos novos, a serem adquiridos a dólar de cem cruzeiros.

Pagas as indenizações trabalhistas correspondentes à seção de obras, desaparecida no incêndio, a empresa se viu na contingência de ter de contar com um aumento de capital substancial para subsistir. O proprietário, não podendo prover a esse aumento com seus próprios recursos, e não admitindo a hipótese de deixar minguar ou desaparecer a empresa, julgou do seu dever procurar um continuador, a quem pudesse transmitir o legado que recebera.

Nada faria o proprietário passar esse legado a um partido, a um grupo econômico ou político. Um jornal como o “Jornal do Commercio” tem de pertencer a um homem de imprensa, que continue a preservar sua autonomia e a ver nele uma força da opinião pública, independente das lutas do dia.

Esse continuador surgiu na pessoa de um homem de imprensa, que realizou a mais gigantesca mobilização de meios de orientação da opinião em nosso país, e que tem dado, nas suas inúmeras e beneméritas iniciativas, as mais altas provas de capacidade e de espírito público: Assis Chateaubriand.

A partir de amanhã o “Jornal do Commercio” passa a ser editado sob a responsabilidade dos Diários Associados e a ter à sua frente, como diretor, um dos mais lídimos jornalistas do país — Carlos Rizzini.

A trajetória do órgão secular não se interrompe, nem declina. Entra, a sua bandeira impoluta, em novos campos de batalha, sob o comando supremo de um homem que nele fez os seus primeiros passos no jornalismo carioca, e que o levará a uma etapa por certo brilhante do seu destino.