San Tiago Dantas

11 de Maio de 1957

JORNAL DO COMMERCIO

Sábado, 11 de Maio de 1957
VÁRIAS NOTÍCIAS


Em meio à crise política, que assola sobretudo os meios parlamentares do país, uma aspiração à tranquilidade, à ordem, ao trabalho, começa a impor-se como um imperativo, que ganha, dia a dia as consciências.

A campanha ensejada pelo pedido de licença para processar o Sr. Carlos Lacerda pode ser julgada por uns verdadeiro atentado às instituições, e considerada por outros a reparação de um abuso inominável das prerrogativas do mandato parlamentar. Nem os que se acham na primeira dessas posições, nem os que se encontram na segunda, pretenderão, entretanto, que este episódio esteja sendo benéfico para a comunidade brasileira e que represente um progresso, mesmo na esfera restrita dos costumes políticos. O episódio é negativo, e filia-se inteiramente à história do personalismo, desde o ponto de partida, que é a campanha de extermínio do Sr. João Goulart, à qual o Sr. Carlos Lacerda vem votando ultimamente boa parte de sua vida pública, até o ponto de chegada, que é a mobilização da Maioria para lançar o seu maior adversário fora das prerrogativas parlamentares.

No curso dos debates, no plenário ou nas comissões, ninguém se elevou, e muitos se diminuíram. Diminuiu-se a maioria, reincidindo em processos duvidosos de alquimia jurídica, que ainda quando lhe asseguram vitória nas votações, tiram-lhe o prestigio durável, a autoridade intelectual e moral indispensável ao desempenho do governo. Diminuiu-se a oposição, tendo de justificar o injustificável, e de passar por provas morais negativas como a confrontação do telegrama 293, de que o líder da UDN fizera, no debate, um tópico de resistência da sua reconvenção de acusado.

Nesta altura do episódio — episódio que a nação contempla com muito maior indiferença do que pode parecer aos seus protagonistas — vem surgindo, nos últimos dias, com insistência, a notícia ou o desejo de uma pacificação.

É difícil dizer até que ponto, em matéria desta natureza, o desejo se faz passar por notícia. Mas ainda assim, tem todo cabimento mostrar que a nação agradeceria aos seus homens públicos um gesto de coragem no sentido do desarmamento dos espíritos e do restabelecimento da convivência entre os partidos.

Apenas, esse movimento de paz não pode ser uma operação de fins táticos, concebida para reverter em benefício das forças do governo ou das forças da oposição. Se o que os oposicionistas ou os governistas querem é fazer, no terreno estreito da política interna, a sua campanha de paz, segundo o modelo da que a União Soviética fez há alguns anos, no campo da política mundial, esse pacifismo passa a ser tão estéril como o atual antagonismo. Para que o movimento de conciliação se recomende é preciso que ele seja sincero e profundo, e que se faça não no interesse de qualquer das forças em choque, mas no interesse superior do povo.

Não quer isso dizer que a oposição deve passar a dar apoio ao governo do Sr. Juscelino Kubitscheck. A oposição serve ao país como oposição, desde que ela e o governo aceitem normas de coexistência, de convívio sem extermínio, de crítica sem demolição.

Tem o país visto a UDN, algumas vezes, por fidelidade aos seus intuitos oposicionistas, adotar atitudes hostis a projetos governamentais, mesmo quando estes se encontram na linha mais consentânea com o interesse nacional. Foi, por exemplo, o caso do veto à lei que criou a Rede Ferroviária Nacional. Atitudes deste gênero fogem à norma básica de convivência, que o país deseja ver seguida pelos partidos.

Outro ponto é o reconhecimento definitivo da legitimidade do Governo, que continua a ser posta em dúvida no espirito de alguns chefes oposicionistas, alimentando formas não institucionais de oposição.

Do mesmo modo é necessário que Governo e oposição se empenhem, com patriotismo, sem reservas, na obra de dissipar do seio das Forças Armadas os resíduos de prevenção recíproca, herdados do 11 de novembro. Não há para o país senão vantagens em que as suas armas estejam unidas, de praças a oficiais generais, por uma camaradagem perfeita, por uma confiança reciproca, e por um devotamento uniforme à nação e às suas instituições. Do mesmo modo, não há senão prejuízos em que estejam divididas.

O primeiro desses prejuízos é a criação, no seio das corporações militares, de uma discriminação entre elementos de maior e menor confiança, que perturba a hierarquia e o seu normal funcionamento. Graças a essa discriminação prosperam grupos, infiltram-se tendências, que seriam naturalmente repelidas pelo organismo da corporação, se não existisse no seu seio a enfermidade, que é a divisão.

O segundo desses prejuízos é a maior vulnerabilidade em que as classes militares ficam à influência dos políticos civis, sempre que se deteriora sua fundamental unidade.

Não há exagero em dizer que a perfeita recomposição da unidade das Forças Armadas, não é só a tarefa dos chefes militares, mas das forças políticas, cuja violenta separação se refletiu no seio daquelas corporações.

Se a atual aspiração de paz, que se delineia nos círculos políticos, sufragada pelo sentimento do povo e das classes trabalhadoras, puder conduzir a resultados como esses, é justo dizer-se que valerá todos os sacrifícios.